
A masculinidade, tal como nos foi apresentada e vendida por gerações, é essencialmente um projeto de domínio. Desde a infância, o homem é treinado para ser aquele que mantém as rédeas: do ambiente, das finanças, das emoções alheias e, principalmente, das suas próprias vulnerabilidades. Aprendemos que o "homem de verdade" é uma rocha inabalável, alguém que nunca se perde no caminho, que sempre tem uma solução pragmática na manga e que jamais permite que o caos atravesse a soleira da sua porta. O problema, que raramente discutimos em mesas de bar ou em grupos de WhatsApp, é que esse desejo de onipotência e controle absoluto é, ironicamente, o solo mais fértil para o florescimento de uma ansiedade paralisante.
Sofremos não apenas pelos problemas reais, o boleto que vence, o conflito no trabalho, a crise no relacionamento, mas pela tensão insuportável de tentar manter uma ordem que a vida, em sua natureza selvagem e imprevisível, insiste em desorganizar. A ansiedade masculina é, em grande medida, o resultado desse descompasso: a tentativa de segurar uma represa que já apresenta rachaduras profundas.
A Rigidez como Sintoma de uma Luta Perdida
Na prática clínica, a ansiedade no homem raramente se apresenta com o figurino clássico dos ataques de pânico ou das crises de choro. Ela é muito mais sutil e, por isso, mais perigosa. Ela costuma se fantasiar de irritabilidade, de um mau humor crônico que afasta a família, ou de uma necessidade quase patológica de organizar cada detalhe da rotina. O homem ansioso é aquele que vive em um estado de vigília constante, como se estivesse em um campo de batalha invisível onde qualquer falha de previsão pudesse resultar em uma desonra irreparável.
Sob a ótica da Gestalt-terapia, esse controle rígido é uma forma drástica de interrupção de contato. O sujeito não habita o aqui-agora; ele está sempre cinco passos à frente no tabuleiro, tentando antecipar desastres e neutralizar ameaças que, na maioria das vezes, só existem na sua imaginação povoada por "e se". Ele não consegue sentir o sabor da comida ou o calor do abraço do filho porque sua mente está ocupada demais fazendo o inventário das possíveis catástrofes de amanhã. É uma existência vivida no futuro, enquanto o corpo padece no presente.
O Medo de Ser Descoberto "Humano"
Essa necessidade de controle é um fardo geracional que carregamos sem jamais ter feito a conferência das peças. Olhamos para nossos pais e vimos homens que, mesmo quando estavam colapsando por dentro, mantinham a máscara de inabaláveis. O sofrimento, então, torna-se um segredo vergonhoso. O homem não admite que está com medo de falhar; em vez disso, ele se torna crítico com os outros, exige perfeição dos subordinados e se isola emocionalmente. Ele sofre pelo medo de ser "descoberto" humano,ou seja, falível, cansado e incerto.
Aqui, a lógica de Franz Kafka em A Metamorfose se torna dolorosamente atual. Gregor Samsa não se torna um inseto por acaso; ele já vivia como uma ferramenta funcional há anos. Sua ansiedade era a de não conseguir mais cumprir o roteiro de provedor que a família esperava dele. Muitos homens hoje vivem sob essa mesma sombra kafkiana: acreditam que, se perderem o controle da situação, se tornarão "insetos" desprezíveis aos olhos da sociedade. Eles não percebem que a "fortaleza" que construíram para proteger sua família é, na verdade, o muro que os isola de qualquer conexão real. A ansiedade é o grito do organismo contra essa desumanização.
O Despertar pela Indignação e pela Presença
O sofrimento masculino hoje está profundamente ligado à nossa incapacidade de aceitar a própria finitude. Fomos convencidos de que admitir que não temos o controle de tudo é um sinal de fraqueza, quando, na verdade, essa é a única verdade biológica que compartilhamos. Como dizia Nise da Silveira: "É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade". Precisamos nos indignar com essa forma de viver que nos obriga a ser máquinas de desempenho. Precisamos nos espantar com o fato de que preferimos infartar de estresse a admitir que estamos sobrecarregados.
O fim do sofrimento pela ansiedade não vem de "técnicas de controle", mas da coragem de abrir mão do controle. Na clínica, o trabalho é ajudar o homem a restabelecer o contato com o seu estado real. É aprender que a vida acontece no intervalo entre os nossos planos. Quando relaxamos a guarda e aceitamos que a vulnerabilidade não é o oposto da força, mas a sua fundação, a ansiedade começa a perder o seu combustível. A cura começa quando o homem decide que prefere ser uma pessoa inteira e presente a ser um herói solitário e exausto. O inventário do medo só pode ser encerrado quando reconhecemos que o roteiro que nos deram já não serve mais para a vida que queremos viver.

Cleiton Pedrosa
Psicólogo Clínico • CRP • 02/29066
Orientado pela Gestalt-terapia com foco no universo masculino e suas angústias contemporâneas. Ofereço um espaço de escuta sóbria para homens que buscam desarmar suas defesas e recuperar autenticidade em suas trajetórias pessoais e profissionais.
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