
Passamos a maior parte da nossa vida adulta tentando, de forma quase desesperada, "curar" a ansiedade. No universo masculino, esse movimento de cura costuma ser confundido com extermínio. Queremos silenciar o aperto no peito, eliminar o pensamento acelerado e estancar o suor frio como se fossem defeitos de fábrica em uma máquina que deveria ser infalível. Tratamos a ansiedade como um invasor estrangeiro, um erro de software que nos impede de ser produtivos. Mas, e se a ansiedade não fosse o problema em si, e sim um sinal vital de que algo na nossa estrutura de vida precisa de atenção urgente?
O psicólogo Enio Brito Pinto, em sua obra fundamental Dialogar com a ansiedade, propõe uma mudança de perspectiva que é, ao mesmo tempo, simples e revolucionária: em vez de lutar contra a crise, precisamos aprender a conversar com ela. Para o homem, isso exige uma coragem que vai além da força bruta. Exige a coragem de parar de fugir da própria vulnerabilidade e começar a perguntar com honestidade: "O que essa angústia está tentando me avisar sobre a trajetória que eu estou seguindo?".
A Ansiedade como o Grito do Organismo
Na Gestalt-terapia, trabalhamos com a ideia de que o organismo é intrinsecamente sábio. Cada sintoma que apresentamos é o que chamamos de um ajustamento criativo. Se a ansiedade surgiu e se instalou na sua rotina, é porque ela foi a melhor resposta que o seu corpo conseguiu produzir para lidar com o campo de pressões ao seu redor. Como aponta Enio Brito Pinto, a ansiedade é, em essência, uma interrupção da excitação para o contato.
Imagine que a excitação é a energia da própria vida, a vontade de agir, de mudar, de criar ou de se posicionar. No entanto, se você vive em um ambiente (seja ele profissional ou familiar) onde não se sente seguro para expressar quem realmente é, essa energia fica bloqueada. A ansiedade é essa energia "represada" que não encontra vazão. É como acelerar um carro com o freio de mão puxado. Para o homem, esse bloqueio costuma ser o medo do julgamento, o medo de ser lido como "menos" ou o medo de que a sua "fortaleza" de vidro se quebre. Dialogar com a ansiedade significa identificar onde o freio de mão está puxado e, finalmente, entender o que estamos tentando segurar.
O Aprendizado Através do Incômodo
Dialogar com a ansiedade não é um exercício místico; é um exercício de awareness (consciência). Para o homem, isso significa quebrar o pacto de silêncio geracional. Precisamos parar de tratar o coração disparado como um "defeito" e passar a olhá-lo como um indicador de que a nossa fronteira de contato com o mundo está sendo violada. Se você sente a angústia subir toda vez que precisa vestir o figurino do "homem inabalável", a ansiedade está sendo mais honesta com você do que o seu próprio espelho: ela está dizendo que esse papel não cabe mais na sua humanidade.
O que podemos aprender com a ansiedade? Primeiro, que a onipotência masculina é uma mentira exaustiva. Segundo, que nossas necessidades biológicas e emocionais são sempre mais fortes do que as obrigações sociais impostas por roteiros de performance. Quando paramos de perguntar "como eu paro de sentir isso?" para perguntar "o que essa sensação me pede para mudar?", deixamos de ser vítimas passivas das nossas crises para nos tornarmos investigadores da nossa própria existência. A ansiedade nos ensina sobre os nossos limites, sobre os nossos desejos sufocados e, principalmente, sobre a nossa necessidade de sermos vistos além da nossa utilidade.
A Clínica como Laboratório de Autonomia
Como nos ensina a abordagem de Enio Brito Pinto, o diálogo com a ansiedade é o que permite que ela deixe de ser uma paralisia e se transforme em ação transformadora. Na clínica, o nosso trabalho não é "calar" o sintoma para que o homem volte a ser um funcionário exemplar ou um parceiro complacente. O objetivo é dar um microfone para essa angústia.
Ouvir a ansiedade significa, muitas vezes, ter que tomar decisões difíceis: dizer um "não" que estava guardado há anos, admitir um cansaço profundo, ou encerrar ciclos que já não nutrem mais o nosso organismo. É um processo de retomada da autorresponsabilidade. O fim da ansiedade como um tormento começa quando paramos de lutar contra o mensageiro e passamos a decifrar a mensagem. Só então podemos construir uma trajetória onde a presença vale mais do que a perfeição, e onde o homem pode, finalmente, respirar sem pedir licença para o seu próprio medo.

Cleiton Pedrosa
Psicólogo Clínico • CRP • 02/29066
Orientado pela Gestalt-terapia com foco no universo masculino e suas angústias contemporâneas. Ofereço um espaço de escuta sóbria para homens que buscam desarmar suas defesas e recuperar autenticidade em suas trajetórias pessoais e profissionais.
Últimas Postagens































O que sua ansiedade está tentando te dizer hoje?
Aprenda a transformar sua angústia em um caminho de autoconhecimento e mude a forma como você vive.
