
Vivemos um tempo de paradoxos brutais. De um lado, vemos um movimento vibrante de mulheres que, exaustas de sustentar sozinhas a carga emocional das relações, buscam ferramentas para entender a si mesmas e ao mundo. Do outro, observamos uma massa de homens que parece ter se refugiado em uma cidadela de silêncio e defensividade. É comum ouvirmos relatos de relacionamentos que naufragam não por falta de amor, mas por uma incapacidade crônica do homem em sustentar uma parceria subjetiva. Ele está lá, provendo e resolvendo problemas práticos, mas está ausente do encontro real.
O sintoma mais gritante dessa ausência é a recusa ao espelhamento. Basta que se sugira um livro, uma palestra ou uma roda de conversa sobre masculinidades para que o mecanismo de defesa seja acionado. A reação costuma variar entre o sarcasmo e o emburramento hostil. O argumento é quase sempre o mesmo: "Eu não preciso disso", ou "Isso é coisa de quem não tem o que fazer". O que esse homem não percebe é que essa recusa não é um sinal de força. Ela é, na verdade, uma evidência do medo pânico de que a sua estrutura de identidade, por vezes tão rígida quanto frágil, desmorone ao menor toque da autocrítica.
A Escultura de Pedra: A Invenção da Dureza
Para compreendermos essa resistência, precisamos descer às raízes da nossa formação. O historiador Durval Muniz de Albuquerque Júnior nos oferece uma chave de leitura essencial quando fala sobre a "Invenção do Nordeste". Ele nos mostra que a figura do macho nordestino não é um fato da natureza, mas uma construção cultural deliberada. Fomos moldados para ser como o solo do sertão em tempos de seca: endurecidos, inquebráveis e impenetráveis.
Essa dureza ancestral foi vendida como uma virtude de sobrevivência, mas nas relações contemporâneas ela se tornou uma patologia do contato. O homem que se orgulha de ser "de uma peça só" é, na verdade, um homem que perdeu a capacidade de se dobrar, de se adaptar e de se deixar afetar pelo outro. Quando ele recusa um convite para refletir sobre sua masculinidade, ele está protegendo esse personagem de pedra que Durval descreve. Ele teme que, se permitir uma fenda na sua armadura, a secura que o define seja substituída por algo que ele não sabe controlar: a sua própria humanidade.
Masculinidade como Prática de Cuidado
Essa defensividade masculina costuma ler qualquer crítica ao machismo como um ataque pessoal, quase um cancelamento da sua existência. É aqui que o trabalho de Benedito Medrado e Jorge Lyra se torna um farol necessário. Eles propõem um deslocamento fundamental ao tirar a masculinidade do lugar de acusada e trazê-la para o lugar de sujeito do cuidado.
O grande erro do homem que se recusa a olhar para si é acreditar que cuidar é algo que ele faz apenas para os outros, como prover ou proteger. Medrado e Lyra nos lembram que o cuidado começa na relação com a própria subjetividade. Estudar masculinidades não é sobre ser punido por ser homem, mas sobre aprender a cuidar da qualidade do vínculo que estabelecemos. O homem que se nega a ampliar seus horizontes está, na verdade, se negando o direito de ser cuidado. Ele se condena a uma solidão acompanhada, onde ele é o pilar da casa, mas ninguém consegue encostar na sua alma.
A Fronteira Rígida e o Desajuste de Contato
Sob o olhar da Gestalt-terapia, essa recusa sistemática ao novo é uma interrupção de contato. O homem que se fecha diante de uma sugestão de mudança está vivendo um desajuste. Ele percebe o mundo externo como uma invasão constante à sua fronteira de ego. Para ele, reconhecer que precisa aprender algo sobre ser homem é admitir que sua verdade interna é insuficiente.
Ele vive pautado por introjetos, aquelas regras que engoliu sem mastigar, como "homem não dá o braço a torcer" ou "homem já nasce sabendo ser homem". Esses introjetos funcionam como uma couraça que impede a troca orgânica com o ambiente. Na clínica, vemos que a ansiedade e a depressão masculina muitas vezes nascem desse esforço hercúleo de manter a rigidez enquanto a vida pede fluidez. O homem prefere romper a relação a romper a sua própria imagem de infalibilidade. Ele confunde a sua rigidez com a sua integridade, sem perceber que a pedra que não quebra acaba sendo moída pelo tempo.
Um Convite ao Aliado Silencioso
O objetivo de falar sobre masculinidades não é angariar culpados, mas convocar aliados. O cenário agudo que presenciamos, de casamentos em crise e homens emocionalmente exilados, só mudará quando entendermos que a nossa ancestralidade de dureza já deu o que tinha que dar. O mundo mudou, as exigências afetivas mudaram, e o macho estátua não serve mais para habitar lares que buscam parceria e diálogo.
Romper essa rigidez é um ato de coragem ética. É entender que a vulnerabilidade não é o oposto da masculinidade, mas a sua forma mais refinada de força. Como nos provocam Medrado, Lyra e Durval Muniz, cada um a seu modo, ser homem no aqui-agora exige a disposição de abandonar o personagem para encontrar a pessoa. O espelho que tanto tememos queimar não é o nosso inimigo. Ele é o único lugar onde podemos, finalmente, nos reconhecer como sujeitos capazes de amar e de ser amados em plenitude.

Cleiton Pedrosa
Psicólogo Clínico • CRP • 02/29066
Orientado pela Gestalt-terapia com foco no universo masculino e suas angústias contemporâneas. Ofereço um espaço de escuta sóbria para homens que buscam desarmar suas defesas e recuperar autenticidade em suas trajetórias pessoais e profissionais.
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Entenda como a rigidez herdada do passado está impedindo você de viver relações mais autênticas e leves.
