
O dia 20 de novembro é um marco que nos convoca a olhar para as feridas que o racismo mantém abertas em nossa sociedade. Como psicólogo, entendo que o consultório não pode ser um refúgio alheio ao mundo; ele é, na verdade, o lugar onde os impactos do racismo estrutural — conceito definido por Silvio Almeida — aparecem de forma visceral na forma como cada homem habita sua trajetória.
Falar de consciência negra no meu trabalho é um posicionamento ético. Como homem branco, reconheço que meu lugar de fala exige um esforço contínuo de desconstrução daquilo que Cida Bento chama de Pacto da Branquitude: o silêncio que mantém privilégios e ignora a dor alheia. Na clínica, romper esse pacto significa garantir que a minha escuta seja sensível ao que a cor da pele significa no campo social.
O Homem Negro e o peso da "Fortaleza"
Quando falamos de masculinidade, falamos de um modelo que exige força e controle. Mas, para o homem negro, esse peso é dobrado. Como aponta a obra de Neusa Santos Souza, Tornar-se Negro, a identidade é forjada em um mundo que muitas vezes nega ao homem negro o direito à vulnerabilidade.
Muitos homens negros chegam à clínica carregando o cansaço de uma hipervigilância constante. É o "ter que ser duas vezes melhor" para ser respeitado, ou o "ter que ser inabalável" para não ser lido como perigoso ou incapaz. Na Gestalt-terapia, vemos isso como um ajustamento necessário para a sobrevivência: a armadura que protege é a mesma que, com o tempo, isola e adoece. O racismo atravessa a saúde emocional masculina ao roubar do homem o direito de ser humano, de falhar e de sentir, empurrando-o para um silêncio que corrói por dentro.
O Compromisso com a Segurança no Contato
Nesse cenário, a terapia não pode ser mais um lugar de invisibilidade. Infelizmente, ainda existem muitos profissionais que não investiram em seu próprio letramento racial e acabam por invalidar dores reais ou, mesmo sem intenção, reforçar preconceitos dentro do consultório.
Por entender a gravidade disso, adoto uma postura rígida: nas ocasiões em que, por questões éticas (como falta de agenda ou impedimentos por vínculos pessoais), eu não posso assumir o atendimento de um paciente negro, faço questão de encaminhá-lo para psicólogos(as) negros(as) de minha confiança. Faço isso para garantir que essa pessoa tenha a segurança de um manejo clínico atento e que respeite a complexidade da sua masculinidade racializada. A terapia deve ser um solo firme e um espaço de resgate da própria sensibilidade.
A Clínica como Espaço de Desconstrução
Meu posicionamento como aliado antirracista é um compromisso técnico e humano. Isso exige:
Validar a experiência racial: Reconhecer que o racismo não é "paranoia", mas um dado concreto que cansa o corpo e a mente.
Olhar para o Homem Inteiro: Entender que a masculinidade negra tem desafios específicos que a psicologia tradicional muitas vezes ignorou.
Letramento constante: É meu dever, como profissional, estudar as dinâmicas de poder para que elas não se tornem pontos cegos na minha escuta.
A luta antirracista é de todos nós que desejamos uma psicologia que ajude a construir sujeitos íntegros e livres. Ocupar esse lugar é a minha forma de honrar a memória de quem resistiu e de quem continua construindo uma existência potente e autêntica.

Cleiton Pedrosa
Psicólogo Clínico • CRP • 02/29066
Orientado pela Gestalt-terapia com foco no universo masculino e suas angústias contemporâneas. Ofereço um espaço de escuta sóbria para homens que buscam desarmar suas defesas e recuperar autenticidade em suas trajetórias pessoais e profissionais.
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Um espaço onde a sua história é respeitada
A clínica é um lugar de cuidado que não ignora o mundo lá fora. Se você busca um processo terapêutico atento às questões raciais e às complexidades da masculinidade contemporânea, vamos conversar?
