No meu consultório, a queixa é quase sempre a mesma: um cansaço que o sono não cura. É o cansaço de sustentar uma farsa. O homem brasileiro, em 2026, vive sob a vigília de um modelo de masculinidade que não admite falhas, dúvidas ou desvios. Mas a realidade é que a masculinidade não é um bloco de concreto; é um campo de forças, atravessado por raça, classe, orientação sexual e identidade de gênero.

Quando falamos de diversidade — de homens trans, gays, bissexuais ou homens cis que não se encaixam no padrão — não estamos falando de uma "pauta ideológica". Estamos falando de saúde mental e da recuperação da humanidade.

A Automutilação Psíquica

A pensadora bell hooks, em sua obra fundamental sobre homens, traz uma provocação que ecoa diretamente na Gestalt: "O primeiro ato de violência que o patriarcado exige dos homens não é a violência contra os outros, mas a automutilação psíquica". Para ser "homem", o sujeito é ensinado a matar partes de si mesmo — a sensibilidade, a intuição e a capacidade de ser cuidado.

Na clínica, vejo isso como uma interrupção de contato. O homem se desconecta de suas necessidades básicas para atender a uma exigência do ambiente. No caso de homens da comunidade LGBTQ+, essa desconexão é ainda mais violenta. O homem trans, por exemplo, muitas vezes precisa "performar" uma hipermasculinidade para ser validado, enquanto o homem gay é pressionado a esconder seus afetos para não perder o respeito profissional. É um esforço de guerra para manter uma imagem que, no fundo, é um cárcere.

Gênero como Performance: O "Fazer" vs. o "Ser"

Aqui entra a contribuição de Judith Butler. Ela argumenta que o gênero não é algo que "somos", mas algo que "fazemos" repetidamente. É uma performance. Na Gestalt, chamamos isso de ajuste criativo. O problema ocorre quando esse ajuste se torna rígido, uma "característica de personalidade" que não permite mais espontaneidade.

O "homem padrão" vive uma performance ensaiada. Quando você tira o crachá, a função e as expectativas, muitos entram em pânico porque não sabem quem são sob a fantasia. A inclusão de masculinidades trans, negras e dissidentes no nosso debate não serve apenas para "incluir o outro", mas para nos mostrar que o roteiro pode ser reescrito. Se o gênero é algo que fazemos, então podemos aprender a fazer de um jeito que não nos mate.

A Fronteira de Contato e o Direito à Diferença

No Brasil, os dados de 2025 mostram que o isolamento social e o suicídio são alarmantes entre homens que não performam a norma (Dossiê ANTRA e levantamentos sobre saúde mental LGBTQ+). Como psicólogo, meu papel não é te dar um novo manual de como ser "um homem moderno e descontruído", mas te ajudar a identificar quais são os introjetos (aquelas verdades engolidas sem mastigar) que estão te impedindo de respirar.

A masculinidade real é aquela que nasce da integração, não da exclusão. É o homem que consegue ser forte e terno, assertivo e vulnerável, provedor de si mesmo e aberto ao cuidado do outro. Seja você um homem cis hétero, um homem trans ou um homem gay, a pergunta de 2026 é a mesma: quem você se torna quando para de tentar provar que é homem?

A sobriedade existencial começa quando você para de policiar a sua própria natureza. Reconhecer a pluralidade das masculinidades é, antes de tudo, um ato de libertação pessoal. É permitir que o "Eu" apareça, para além do personagem que o sistema te obrigou a interpretar.

Cleiton Pedrosa

Cleiton Pedrosa

Psicólogo Clínico • CRP • 02/29066

Orientado pela Gestalt-terapia com foco no universo masculino e suas angústias contemporâneas. Ofereço um espaço de escuta sóbria para homens que buscam desarmar suas defesas e recuperar autenticidade em suas trajetórias pessoais e profissionais.

Cleiton Pedrosa - Psicólogo

Você está vivendo a sua vida ou interpretando um papel que não escreveu?

A diversidade não é sobre "os outros", é sobre a sua liberdade de ser quem você é. Se o peso de ser o "homem de verdade" está esmagando a sua saúde mental, vamos conversar. Este é um espaço afirmativo e seguro para todas as masculinidades.