O mês de novembro traz consigo uma cor que já se tornou símbolo da saúde masculina. As campanhas de conscientização sobre o câncer de próstata são fundamentais e cumprem um papel vital, mas elas também nos revelam uma verdade desconfortável: nós, homens, precisamos de um "mês temático" para lembrarmos que temos um corpo que exige cuidado.

Por trás dos laços azuis, existe uma realidade estatística dura. No Brasil, em 2025, os dados continuam confirmando que os homens vivem, em média, sete anos a menos que as mulheres. Morremos mais de doenças cardiovasculares, diabetes e causas externas. Mas o dado mais alarmante não é a doença em si, e sim o fato de que muitas dessas mortes seriam evitáveis se o contato com o cuidado tivesse acontecido antes.

A conta que não fecha: Por que nos cuidamos menos?

A pergunta que precisamos fazer é: por que o homem médio brasileiro ainda vê a ida ao médico ou ao terapeuta como um sinal de derrota?

A resposta não está na biologia, mas na cultura. Como discutimos em Angústias Contemporâneas e Gestalt-terapia, fomos ensinados a operar em um modelo de invulnerabilidade. Aprendemos que o corpo masculino deve ser uma ferramenta de performance inesgotável. Cuidar de si, para muitos homens, ainda é lido como uma "perda de tempo" ou, pior, como algo que fere a imagem de força que tentamos sustentar diante da família e do mercado de trabalho.

O resultado desse "ajustamento rígido" à masculinidade tradicional é um homem que só procura ajuda quando a máquina para de funcionar. Nós cuidamos da manutenção do carro, da atualização do software da empresa e da estratégia do negócio, mas negligenciamos o organismo que sustenta tudo isso.

O corpo fala o que a boca cala

Na clínica, percebo que a negligência com a saúde física anda de mãos dadas com a ausência masculina nos consultórios de psicologia. O homem que evita o exame de sangue é, muitas vezes, o mesmo que ignora a angústia no peito ou a irritabilidade que está destruindo suas relações.

A bell hooks, em suas reflexões sobre o universo masculino, aponta que o patriarcado exige que os homens se desconectem de seus próprios sentimentos para poderem exercer o poder. Essa desconexão tem um preço alto. Quando paramos de sentir nossas emoções, também paramos de ouvir os sinais de alerta do nosso corpo. A dor, física ou emocional, é vista como um inimigo a ser silenciado com analgésicos ou distração, em vez de ser ouvida como uma mensagem do organismo.

Saúde emocional é sobrevivência

Estar atento à saúde em novembro (e em todos os outros meses) não é apenas sobre prevenir o câncer de próstata. É sobre romper com o ciclo de abandono de si mesmo. A verdadeira força não está em ser inquebrável, mas em ter a coragem de olhar para a própria fragilidade e assumir a responsabilidade por ela.

Ocupar o espaço da clínica de psicologia, por exemplo, é um dos atos mais preventivos que um homem pode realizar. É lá que desarmamos as defesas que nos impedem de perceber que estamos exaustos, doentes ou simplesmente tristes.

Cuidar-se é um ato de maturidade. É entender que, para continuar sendo o suporte que você deseja ser para o mundo e para as pessoas que ama, você precisa primeiro ser o solo que sustenta a sua própria vida.

Cleiton Pedrosa

Cleiton Pedrosa

Psicólogo Clínico • CRP • 02/29066

Orientado pela Gestalt-terapia com foco no universo masculino e suas angústias contemporâneas. Ofereço um espaço de escuta sóbria para homens que buscam desarmar suas defesas e recuperar autenticidade em suas trajetórias pessoais e profissionais.

Cleiton Pedrosa - Psicólogo

Saúde também é sobre o que acontece com o nosso emocional

Se você sente que tem negligenciado seus sinais de alerta e deseja um espaço para olhar de frente para o que realmente importa, a clínica é esse lugar. Vamos conversar sobre como resgatar o seu cuidado?