
Enquanto levantamentos trazem uma queda significativa na violência letal no Brasil, ano após ano, outros dados revelam uma ferida aberta que se recusa a fechar e que deveria nos tirar o sono. O contraste entre o Atlas da Violência e os recentes relatórios de feminicídio expõe uma realidade brutal: entre 2015 e 2025, o número total de mortes violentas no país caiu drasticamente de 59.080 para 34.086 — uma redução real de 43%. No entanto, no mesmo período, os feminicídios registrados saltaram de 449 para 1.568 casos, de acordo com o FBSP (Forum Brasileiro de Segurança Pública).
Isso significa que, enquanto o mundo está ficando progressivamente mais seguro para os homens circularem na rua, o lar e as relações íntimas estão se tornando três vezes mais letais para as mulheres. Essa "paz" masculina, usufruída nos espaços públicos, está sendo literalmente comprada com o sangue delas no ambiente privado. Como psicólogos e como homens, não podemos olhar para esses números como meras métricas de gestão pública. Eles são o sintoma de uma masculinidade que, ao se sentir ameaçada ou perder o controle, recorre ao extermínio do outro.

O Silêncio que Lubrifica a Arma
O feminicida não surge de um vácuo social ou de um surto isolado; ele é o estágio final de uma cultura de posse que nós, homens, sustentamos através do silêncio e da conveniência. Quando casos de estupro coletivo ou assédio tomam as manchetes, o "homem comum" — aquele que se considera "de bem" — apressa-se em dizer que "não é assim" ou que "nem todo homem é igual". Mas, na prática cotidiana, a omissão diante de uma piada machista no grupo de WhatsApp, ou o silêncio diante do controle obsessivo que um amigo exerce sobre a parceira, é exatamente o que fornece o suporte emocional e social para o agressor.
Na Gestalt-terapia, entendemos que o silêncio nunca é neutro. Ele é um ajuste de contato covarde. Ao calar diante da violência simbólica, o homem está, na verdade, validando a fronteira de contato do agressor. Ele está dizendo: "o que você faz é aceitável dentro do nosso pacto". Esse pacto de "broderagem" é o que permite que o abuso escale da palavra para o gesto, e do gesto para o crime.
Para Além da Análise: A Necessidade do Espanto
Não basta "entender" os números ou explicar sociologicamente o patriarcado. É preciso deixar que a realidade nos agrida. Nise da Silveira, com a clareza de quem conhecia as profundezas da alma humana, nos deixou um alerta que serve como um soco no estômago da nossa apatia.
É necessário se espantar, se indignar e se contagiar, só assim é possível mudar a realidade.
Se você lê que o feminicídio triplicou em uma década e não sente um nó no estômago, sua capacidade de contato com a realidade está doente. A apatia masculina diante desses abusos não é "sobriedade", é uma patologia da sensibilidade. Precisamos nos espantar com a nossa própria capacidade de ignorar o óbvio para manter o conforto entre "iguais". A mudança não virá de cartilhas de comportamento, mas de um contágio de indignação que nos impeça de continuar sendo cúmplices silenciosos de um sistema que mata quem dizemos amar.
A Clínica como Espaço de Combate
A terapia para homens, especialmente no contexto atual, não pode ser apenas um refúgio para aliviar o estresse do trabalho ou buscar "performance". Ela precisa ser um laboratório de confronto ético. Mobilizar os homens nesse cenário significa quebrar o espelhamento narcísico que nos torna cegos para a alteridade. Quando um homem entra no consultório com queixas de exaustão ou perda de sentido, precisamos também olhar para como ele se posiciona diante da violência estrutural que o cerca.
O combate à violência de gênero começa no aqui-agora das nossas escolhas. Significa trocar a "lealdade entre homens" pelo compromisso com a vida. Significa que, ao perceber um comportamento abusivo em um círculo social, o homem deve ter a coragem de ser o elemento de ruptura, de interromper o fluxo da agressão, mesmo que isso custe sua "popularidade" no grupo. A clínica é o espaço onde esse homem pode desconstruir a armadura que o impede de sentir a dor do outro e, finalmente, assumir uma responsabilidade ativa. O fim da violência contra a mulher não é uma pauta feminina; é uma urgência masculina de resgatar a própria humanidade que foi perdida no processo de dominação.

Cleiton Pedrosa
Psicólogo Clínico • CRP • 02/29066
Orientado pela Gestalt-terapia com foco no universo masculino e suas angústias contemporâneas. Ofereço um espaço de escuta sóbria para homens que buscam desarmar suas defesas e recuperar autenticidade em suas trajetórias pessoais e profissionais.
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