
A maioria dos homens que chega ao consultório não busca olhar para si mesmo, busca manutenção. Eles se percebem como máquinas de alta performance que começaram a apresentar falhas no sistema. Em "A Vontade de Mudar", bell hooks¹ lança um olhar devastador sobre essa condição, revelando que o patriarcado exige de cada homem o sacrifício da sua vida emocional em troca de poder. Para o homem que busca a novas formas de estar no mundo, a autora oferece um mapa para o resgate de partes de si que foram deixadas para trás.
O peso dos introjetos estruturantes
Na Gestalt-terapia, chamamos de introjetos toda ideia ou comportamento que absorvemos do meio sem qualquer "mastigação" ou crítica. O patriarcado opera através de introjetos que ensinam ao menino que ser homem é ser o oposto de ser humano. Se o ser humano é vulnerável, o homem deve ser invulnerável. Essa introjeção é tão profunda que o sujeito deixa de reconhecer seus próprios impulsos organísmicos. Ele não chora quando sente dor, ele se irrita. bell hooks afirma que essa "primeira mentira" — a negação da própria dor para se adequar a uma norma de força — é o que sustenta o sistema e torna o homem um estranho para si mesmo.
O autoexílio emocional e a performance
O que a obra descreve não é uma escolha consciente, mas uma mutilação da subjetividade. Para sobreviver em um mundo dominado pela lógica da dominação, o homem se impõe um autoexílio emocional. Ele retira-se da sua própria interioridade para morar na superfície da performance. O "homem funcional" é eficiente, provê, decide e comanda, mas é incapaz de intimidade real. A tragédia apontada por hooks é que o patriarcado promete a felicidade através da dominação, mas o custo real é a incapacidade de amar. O homem que não sente não pode conectar-se; ele apenas impacta o outro ou o utiliza como ferramenta, mas nunca está presente em um contato autêntico.
A amorosidade como práxis freiriana
A costura com o pensamento de Paulo Freire torna-se essencial aqui. Em sua pedagogia, Freire defendia que a educação é um ato de amor e coragem, e que a desumanização é uma distorção da nossa vocação de ser mais. Quando o homem exerce o papel de opressor patriarcal, ele se desumaniza tanto quanto aqueles que oprime. A amorosidade freiriana não é um sentimento passivo, mas uma práxis, o compromisso radical com a humanização do mundo e de si. bell hooks afirma que a mudança masculina exige uma "vontade de amar" que seja maior que a vontade de dominar. Enquanto Freire propunha a conscientização para a libertação política, hooks e a Gestalt propõem a awareness para a libertação emocional: o reconhecimento de que a armadura usada para se proteger do mundo é a mesma que impede o sujeito de respirar.
O assunto inacabado com a figura paterna
Um dos eixos mais profundos de "A Vontade de Mudar" é a análise do vínculo entre pais e filhos, que frequentemente deixa para trás o que chamamos na minha abordagem de gestalt aberta. Muitos homens vivem em uma busca incessante por poder como uma forma de tentar fechar a necessidade de aprovação de figuras paternas que também estavam exiladas de si mesmas. O filho passa a vida tentando ser "o melhor" para ser visto por um fantasma. A mudança real só acontece quando o homem para de buscar o poder para compensar a falta de amor, o que exige o luto desse pai idealizado e o reconhecimento de que a força real vem da integridade, não do controle.
O perigo da otimização do patriarcado
Existe uma armadilha contemporânea onde homens buscam terapia ou literatura de gênero apenas para se tornarem "versões otimizadas" do patriarcado. Querem aprender a falar de sentimentos apenas para gerirem melhor suas equipes ou evitarem conflitos que atrapalham sua produtividade. Isso não é mudança, é cosmética funcional. A vontade de mudar proposta por bell hooks é uma ruptura de paradigma, uma traição à lógica da dominação. Se a busca por autoconhecimento não faz o homem questionar o seu lugar de poder e sua necessidade neurótica de controle, ele está apenas atualizando o software da sua funcionalidade.
A busca por uma masculinidade mais autêntica exige o abandono do entorpecimento. Exige que o homem suporte o desconforto de sentir a própria exaustão e a própria sede de contato real. Atravessar a obra de bell hooks sob o olhar gestáltico e freiriano é um exercício de desmonte do "personagem" para que o organismo possa voltar a viver. Como diria Freire, a liberdade é uma conquista, não uma doação. O patriarcado quer que você continue funcionando; a vida quer que você comece a existir.
Nota: ¹ bell hooks escolheu grafar seu nome em letras minúsculas para enfatizar que o foco de sua escrita deve estar em suas ideias e na substância de seus livros, e não em sua identidade pessoal ou ego.

Cleiton Pedrosa
Psicólogo Clínico • CRP • 02/29066
Orientado pela Gestalt-terapia com foco no universo masculino e suas angústias contemporâneas. Ofereço um espaço de escuta sóbria para homens que buscam desarmar suas defesas e recuperar autenticidade em suas trajetórias pessoais e profissionais.
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