Muitos homens carregam a crença de que o silêncio é o seu lugar mais seguro. Diante de uma crise no trabalho ou de uma turbulência emocional, a tendência é o recolhimento. É como se, ao fechar a porta das palavras, pudéssemos manter a casa em ordem, protegendo quem amamos do peso do que estamos sentindo.

Mas existe uma diferença perigosa entre o silêncio da paz e o silêncio da omissão.

O "quase nada" que dizemos

Em uma das passagens mais marcantes de Tudo é Rio, Carla Madeira escreve:

"Dizer é muito pouco. O que se diz é quase nada perto do que se sente. Mas o que não se diz é tudo o que se é."

Na clínica, essa frase ganha contornos reais todos os dias. Quando um homem se cala por tempo demais em uma relação, ele não está apenas "poupando" o outro. Ele está, sem perceber, retirando a sua essência do encontro. O que não é dito — a angústia pela carreira, a dúvida sobre a própria capacidade, o cansaço dos papéis sociais — acaba sendo o que ele se torna: um homem ausente, ainda que presente fisicamente.

Esse "quase nada" que dizemos no dia a dia é o que mantém a superfície da relação calma, mas é no "tudo o que se é" (o não dito) que a verdadeira distância se cria. O parceiro ou a parceira sente que está tocando em uma parede, não em uma pessoa.

A quietude como temperamento, não como fuga

É aqui que precisamos do discernimento que Susan Cain nos oferece em O Poder dos Quietos. A introversão e a necessidade de silêncio não são defeitos. Muitos homens têm uma natureza reflexiva, que precisa de tempo e solidão para processar a vida. Isso é potência, não é patologia.

O problema surge quando usamos essa característica natural como um esconderijo. A quietude saudável é aquela que permite ao homem observar o mundo com profundidade e, depois, retornar ao encontro com algo para compartilhar. Já o silêncio defensivo é aquele que corta o fluxo. Enquanto a quietude de Susan Cain é uma forma de estar no mundo, o silêncio que Carla Madeira descreve é uma forma de se perder de si.

Do represamento ao transbordo

A terapia, sob a ótica da Gestalt, não busca forçar o homem a falar o tempo todo. O objetivo é ajudar a identificar o que está "represado" a ponto de causar dor. Às vezes, o silêncio é tão pesado que o homem precisa de ajuda para encontrar a primeira palavra — aquela que vai abrir a fenda para que a vida volte a correr.

Como no livro de Carla Madeira, as emoções são forças da natureza. Elas não pedem licença para existir. Se não encontram canal na fala e na transparência, acabam transbordando em forma de irritabilidade, apatia ou sintomas físicos.

Um ponto de contato para hoje

Se você se reconhece nesse lugar de "sentir muito e dizer quase nada", tente observar o seu silêncio hoje:

  • Ele é um lugar onde você se recarrega (quietude) ou um lugar onde você se esconde (esquiva)?

  • Qual é a frase que você está segurando há mais tempo, acreditando que ela é pesada demais para ser dita?

Talvez o que você considere "pesado demais" seja justamente o que o outro precisa ouvir para se sentir conectado a você novamente. Nem todo silêncio protege; às vezes, a verdadeira proteção está na coragem de dar nome ao que se sente.

Cleiton Pedrosa

Cleiton Pedrosa

Psicólogo Clínico • CRP • 02/29066

Orientado pela Gestalt-terapia com foco no universo masculino e suas angústias contemporâneas. Ofereço um espaço de escuta sóbria para homens que buscam desarmar suas defesas e recuperar autenticidade em suas trajetórias pessoais e profissionais.

Cleiton Pedrosa - Psicólogo

Quebrar o silêncio é o primeiro passo para o encontro.

O diálogo que você evita pode ser a chave para o fluxo que você busca. Vamos conversar sobre como resgatar sua presença nas suas conexões?