
Muitos homens acordam com a estranha sensação de que seus corpos e suas rotinas não lhes pertencem totalmente. Existe um desconforto surdo, uma espécie de asfixia que não vem de um problema pulmonar, mas de uma vida organizada em torno de expectativas alheias. É como se, ao longo dos anos, tivéssemos assinado um contrato sem ler as letras miúdas. Acordamos, performamos, resolvemos problemas e voltamos para casa com a sensação de que somos apenas os figurantes de luxo da nossa própria história.
Essa sensação de estar "preso na própria pele" raramente é um acidente. Ela é o resultado de um inventário emocional que herdamos dos nossos pais. Recebemos, junto com o sobrenome, um conjunto de instruções sobre o que significa ser homem, como se portar diante da dor e qual o nível de silêncio necessário para manter a dignidade. O problema é que muito do que recebemos não foi "mastigado"; foi simplesmente engolido inteiro.
A Metamorfose do Provedor
Em A Metamorfose, de Franz Kafka, o protagonista Gregor Samsa acorda transformado em um inseto monstruoso. O que torna a obra aterrorizante não é a mutação física em si, mas a reação imediata de Gregor e de sua família: a preocupação não é com a sua saúde ou com o seu sofrimento, mas com o fato de que ele, agora, é incapaz de trabalhar e prover. Gregor deixa de ser um filho e um irmão para se tornar um estorvo funcional.
Essa é a realidade de muitos homens hoje. Fomos ensinados que o nosso valor é diretamente proporcional à nossa utilidade. Se paramos de produzir, se adoecemos ou se simplesmente admitimos que estamos exaustos, sentimos a sombra da "insignificância" de Kafka pairar sobre nós. Aprendemos com nossos pais que um homem que não resolve problemas é um homem que não tem lugar à mesa. Esse introjeto — essa ideia "engolida" sem crítica — nos obriga a manter uma máscara de eficiência absoluta, mesmo quando estamos colapsando por dentro. Vivemos com medo de que, se a nossa funcionalidade falhar, o amor e o respeito das pessoas ao nosso redor desapareçam junto com o nosso contracheque.
A Rigidez que Isola
Para sustentar essa funcionalidade kafkiana, acabamos construindo uma barreira de proteção. Robert Fisher, em sua alegoria sobre o homem que se perdeu em suas obrigações sociais, descreve alguém que se tornou tão apegado à sua imagem de "cavaleiro bondoso e generoso" que não conseguia mais retirar a viseira para comer ou beijar a esposa. Ele não era mau; ele apenas estava convencido de que aquela face rígida era a única coisa que o mantinha seguro e respeitado no reino.
Na clínica, observamos homens que habitam essa mesma rigidez. Eles não usam metal, mas usam o silêncio, o sarcasmo ou o racionalismo excessivo como uma segunda pele. Essa couraça, que um dia serviu para protegê-los das críticas do pai ou da dureza do mundo, agora é o que os impede de sentir o toque real das relações. Eles estão presentes fisicamente, mas a sua subjetividade está exilada atrás de uma fachada de controle. O custo dessa proteção é o isolamento: você se torna inabalável, mas também se torna intocável. E nada asfixia mais um homem do que a incapacidade de ser visto em sua verdade.
O Despertar da Autorresponsabilidade
A Gestalt-terapia nos convida a olhar para esse inventário e perguntar: "O que disso aqui é realmente meu e o que eu estou carregando apenas por hábito?". Sair do automático exige que paremos de culpar o passado para começar a confrontar o presente. Não se trata de perdoar ou condenar o pai, mas de reconhecer que o roteiro que ele nos entregou era o único que ele conhecia — e que nós não somos obrigados a continuar a encenação.
A mudança começa quando substituímos o "eu tenho que ser" pelo "como eu estou agora". É o momento em que o homem decide que prefere ser humano a ser funcional. É a coragem de admitir que a "fortaleza" que ele construiu para proteger sua família é, na verdade, o muro que o afasta dela. Romper com essa herança de silêncio não é um ato de rebeldia infantil, mas um ato de maturidade ética. É assumir a responsabilidade pela própria existência e decidir que, a partir de agora, o roteiro será escrito com as próprias mãos, respeitando a própria biologia e a própria necessidade de contato.

Cleiton Pedrosa
Psicólogo Clínico • CRP • 02/29066
Orientado pela Gestalt-terapia com foco no universo masculino e suas angústias contemporâneas. Ofereço um espaço de escuta sóbria para homens que buscam desarmar suas defesas e recuperar autenticidade em suas trajetórias pessoais e profissionais.
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