
A maioria dos homens aprendeu que a sua principal função é ser um pilar. Não importa o que aconteça no trabalho, nas crises financeiras ou nos conflitos familiares, a ordem é uma só: "mantenha a calma e resolva". Essa postura cria o que podemos chamar de uma fortaleza interna. O problema é que essa construção raramente é feita de pedra; ela é de vidro. Por fora, transmite solidez e transparência, mas, por dentro, é um ambiente de isolamento onde ninguém entra e nada sai. O custo de bancar o inabalável é viver em um estado de alerta constante, onde qualquer sinal de humanidade é visto como uma rachadura perigosa.
O Racionalismo como Escudo de Defesa
Na clínica, é comum observar homens que são extremamente inteligentes para explicar seus problemas, mas totalmente analfabetos para senti-los. Eles usam o racionalismo como uma técnica de distanciamento. Quando questionados sobre como se sentem em relação a uma perda ou um fracasso, eles respondem com uma análise lógica sobre as causas externas. Na Gestalt-terapia, percebemos isso como uma fuga do aqui-agora. O sujeito fala sobre a vida, mas não habita a própria experiência. Ele explica o "porquê" de estar estressado para evitar o "como" o estresse está operando no seu corpo e nas suas relações neste exato momento.
Do Piloto Automático à Presença Real
Bancar a fortaleza exige que o homem opere no modo automático. Ele se torna um excelente executor de tarefas e um péssimo companheiro de jornada. A presença real exige porosidade — a capacidade de ser afetado pelo outro e pelo ambiente. O homem "inabalável" perdeu essa capacidade; ele apenas impacta, ele não troca. O resultado é uma solidão acompanhada: ele provê, ele protege, ele está fisicamente lá, mas sua subjetividade está exilada. A quebra desse ciclo não vem através de um desabafo emocional descontrolado, mas através da retomada da awareness: o reconhecimento de que a rigidez não é força, é apenas falta de mobilidade.
Autorresponsabilidade vs. Sobrecarga Heroica
Existe um mito masculino de que ser autorresponsável significa carregar o mundo nas costas sem reclamar. Isso não é responsabilidade, é delírio de onipotência. A verdadeira autorresponsabilidade, sob a ótica da Gestalt, é a capacidade de responder às suas próprias necessidades organísmicas. Se você está exausto, a resposta responsável é o descanso, não o café extra. Se você está perdido, a resposta responsável é o pedido de ajuda, não o silêncio orgulhoso. Trocar a imagem do "herói solitário" pela do "homem autêntico" é o que permite que a fortaleza de vidro dê lugar a uma base sólida, onde a vulnerabilidade não é um erro do sistema, mas a prova de que existe vida ali dentro.

Cleiton Pedrosa
Psicólogo Clínico • CRP • 02/29066
Orientado pela Gestalt-terapia com foco no universo masculino e suas angústias contemporâneas. Ofereço um espaço de escuta sóbria para homens que buscam desarmar suas defesas e recuperar autenticidade em suas trajetórias pessoais e profissionais.
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É preciso coragem para abraçar a própria humanidade
Saiba como a Gestalt-terapia ajuda homens a trocarem a rigidez do automático pela presença e autenticidade.
