Como psicólogo, percebo que muitos homens chegam ao consultório com um sentimento amargo, uma sensação de que "fizeram tudo certo", seguiram o roteiro que lhes foi ensinado, mas o mundo mudou as regras no meio do jogo. Esse sentimento tem nome: ressentimento.

Os dados divulgados até setembro de 2025 pela Agência Patrícia Galvão mostram que esse amargor tem um desfecho trágico. No primeiro semestre deste ano, o Brasil viu os registros de feminicídio subirem 1,2%, acompanhados por um crescimento de 5% na violência doméstica e uma curva ascendente e assustadora nos registros de violência sexual, quase sempre praticada por pessoas do convívio da vítima.

O "Direito Ferido"

O sociólogo Michael Kimmel explica que grande parte da violência masculina nasce do que ele chama de ressentimento por um direito ferido. Muitos de nós fomos criados acreditando que, se fôssemos provedores e "homens de bem", teríamos garantido o controle sobre nossa casa e o respeito (ou obediência) das mulheres.

Quando as mulheres ocupam espaços, impõem limites e exercem sua liberdade, esse homem se sente injustiçado. Ele não vê a autonomia dela como um direito, mas como uma ofensa pessoal. O ressentimento funciona como uma névoa: ele impede o homem de ter um contato real com a parceira. Ele para de enxergar uma pessoa e passa a enxergar alguém que está "tirando algo dele". Nesse estado, a violência sexual ou física aparece como uma tentativa desesperada e distorcida de "restaurar a ordem" e recuperar o poder perdido.

A Gestalt do Ressentimento

Na clínica, vemos o ressentimento como uma experiência que travou. O homem fica preso a um modelo de mundo que não existe mais. Como bell hooks nos lembra, o patriarcado nos ensinou que ter poder sobre os outros é o que nos faz homens. Quando perdemos esse poder, nos sentimos castrados e reagimos com rigidez e agressividade.

A violência sexual, em especial, é a expressão máxima dessa desumanização. É o ponto onde o desejo deixa de ser um encontro e passa a ser uma imposição de posse, alimentada por esse silêncio de quem não sabe lidar com a frustração.

Um caminho além da amargura

O meu papel aqui não é apontar o dedo, mas oferecer um espelho. Se você sente que o mundo "te deve" algo, ou se a liberdade das mulheres ao seu redor te gera uma raiva difícil de controlar, é hora de olhar para esse ressentimento.

Quando a gente aceita que o respeito não é algo que se impõe, mas algo que se constrói na igualdade resgatamos o movimento natural da vida. Sair desse lugar de "vítima injustiçada" e assumir a responsabilidade pela própria vida emocional é o ato de maior maturidade de um homem.

Cleiton Pedrosa

Cleiton Pedrosa

Psicólogo Clínico • CRP • 02/29066

Orientado pela Gestalt-terapia com foco no universo masculino e suas angústias contemporâneas. Ofereço um espaço de escuta sóbria para homens que buscam desarmar suas defesas e recuperar autenticidade em suas trajetórias pessoais e profissionais.

Cleiton Pedrosa - Psicólogo

O ressentimento é uma prisão. Vamos buscar a saída?

Se você sente que a raiva ou a sensação de injustiça estão pautando suas relações, meu consultório é um espaço para desconstruir esses pesos e recuperar o sentido da sua trajetória.