
Existe uma ferida silenciosa que atravessa a história de quase todo homem. Ela não começa na vida adulta, mas nos primeiros nãos que recebemos quando ainda somos meninos. É o não à cor rosa, o não à boneca, o não ao choro e o não a qualquer gesto que possa ser lido como coisa de mulherzinha. Aprendemos muito cedo que, para sermos aceitos no clube da masculinidade, precisamos realizar uma espécie de autoamputação. Tudo o que em nós remeta ao universo feminino deve ser vigiado, ridicularizado e, finalmente, exilado.
Esse processo de rejeição é a verdadeira gênese da misoginia. Não odiamos as mulheres apenas por uma questão cultural externa. Odiamos nelas aquilo que fomos obrigados a matar em nós mesmos. Quando um homem reage com violência ou desprezo ao que é feminino, ele está tentando silenciar a dor da sua própria parte amputada. É o que diversas linhas da psicologia veem como um fenômeno de projeção: o que eu não suporto reconhecer como meu, eu ataco no outro com ferocidade para manter a minha própria couraça intacta e inquestionável.
A Armadilha das Energias Essencialistas
Recentemente, temos visto o crescimento de discursos que tentam suavizar essa rigidez falando em energia masculina e energia feminina. Embora pareça uma linguagem moderna e espiritualizada, muitas vezes essa lógica apenas reforça as velhas celas. Dizem que o homem deve operar exclusivamente na energia da ação e a mulher na energia da recepção, como se fôssemos seres movidos a manuais de instrução metafísicos e imutáveis.
Essa tentativa de segmentar o que sentimos em compartimentos estanques é um sério desajuste de contato. Na vida real, o organismo humano é uma totalidade fluida. Um homem que se proíbe de ser receptivo, sensível ou cuidadoso sob o pretexto de manter sua suposta polaridade está apenas construindo uma nova armadura. Ele deixa de ser um sujeito inteiro para se tornar um personagem de um roteiro conservador que teme a imprevisibilidade da vida. A saúde não está em escolher uma energia fixa, mas em permitir que o organismo responda com o que for necessário para o momento presente.
O Manifesto da Integração na Música Brasileira
Felizmente, a nossa arte sempre foi um espaço de resistência contra essa mutilação. Quando Pepeu Gomes lançou Masculino e Feminino, ele não estava apenas fazendo um hit de rádio. Ele estava lançando um manifesto clínico. Ao cantar que ser um homem feminino não fere o lado masculino, Pepeu propõe a integração. Ele nos lembra que a nossa humanidade é composta por essa trama de fios que a cultura tenta separar à força.
Essa mesma coragem de habitar a própria sensibilidade aparece na obra de Gilberto Gil. Em Pai e Mãe, Gil descreve o gesto de superar a secura e a distância física que a masculinidade tradicional impõe. Ao cantar sobre o beijo na mão e no rosto do pai, ele rompe o silêncio afetivo que herdou. É o reconhecimento de que o amor e o carinho entre homens não precisam ser mediados pela agressividade ou pelo distanciamento. Já em Super-homem, a Canção, o artista admite a derrota da onipotência do herói diante do nascimento da sensibilidade. Ele reconhece que a parte mulher nele é o que permite a conexão real com a vida.
A Relação Eu-Isso e a Dessensibilização
Aqui, precisamos mergulhar na filosofia de Martin Buber para entender o preço que pagamos por esse exílio. Quando o homem introjeta que o sensível é perigoso, ele opera uma dessensibilização profunda. Ele deixa de ser um Eu que se relaciona com o mundo e consigo mesmo em uma dimensão de Tu, ou seja, de presença, troca e alteridade.
Em vez disso, ele cai na relação Eu-Isso. Ele passa a tratar a si mesmo como um objeto, uma coisa que deve apenas funcionar, prover e ser forte. Como consequência direta, ele passa a tratar o feminino e as mulheres também como um Isso, como objetos de controle, desejo ou desprezo. A dessensibilização é o que permite ao homem ignorar a dor do outro, porque ele já ignorou a sua própria há muito tempo. Ele se torna uma estrutura de resistência: rígido por fora e vazio por dentro, incapaz de sustentar um encontro verdadeiro.
A Biografia como Prova de Inteireza
Muitas vezes, a resistência masculina em aceitar esses temas nasce do medo de que a sensibilidade nos torne incapazes de construir legados ou sustentar relações sólidas. No entanto, o exemplo desses artistas prova exatamente o contrário. Gilberto Gil, Caetano Veloso e Pepeu Gomes são homens que construíram trajetórias imensas, relações duradouras e famílias numerosas.
Eles não precisaram sacrificar o sensível para serem homens presentes e produtivos. Pelo contrário, é justamente essa capacidade de integrar o feminino que confere a eles uma força que a rigidez jamais alcançaria. A música Todo Homem, de Zeca Veloso, sintetiza isso com uma beleza visceral ao lembrar que todo homem precisa de uma mãe, de um amparo e de uma origem que é inevitavelmente feminina. A fragilidade biológica de nascer de uma mulher é a nossa primeira lição de que somos seres dependentes, sensíveis e sociais.
A Retomada na Clínica
Na clínica com homens, o desafio é frequentemente este: ajudar o sujeito a identificar os introjetos que ele engoliu sem mastigar na infância. Aquelas verdades impostas que dizem que ele deve ser um objeto de pedra para ser respeitado. O objetivo é devolver ao homem o seu Eu, permitindo que ele saia da relação funcional com a vida e entre em uma relação de presença.
Romper com o ódio ao feminino em nós é o único caminho para pararmos de odiar as mulheres no mundo. Precisamos entender que o universo sensível, os afetos e o cuidado não pertencem a um gênero, mas à experiência humana total. Ser homem por inteiro exige a disposição de resgatar o que foi exilado. Só quando aceitarmos a mulher que habita em nós é que poderemos olhar para as mulheres com respeito e para nós mesmos com paz.

Cleiton Pedrosa
Psicólogo Clínico • CRP • 02/29066
Orientado pela Gestalt-terapia com foco no universo masculino e suas angústias contemporâneas. Ofereço um espaço de escuta sóbria para homens que buscam desarmar suas defesas e recuperar autenticidade em suas trajetórias pessoais e profissionais.
Últimas Postagens
































O encontro terapêutico como resgate da sua humanidade
Passe da funcionalidade para a presença real através de um processo clínico focado em sua inteireza.
