
Você provavelmente é aquele homem a quem todos recorrem. Quando o cano estoura, quando a empresa entra em crise ou quando a família desmorona, é o seu telefone que toca. Você aprendeu a ser o pilar, o "porto seguro", o cara que mantém a cabeça fria enquanto o mundo ao redor pega fogo.
Há uma certa nobreza nisso, é verdade. Mas, no silêncio do fim do dia, surge uma pergunta que raramente você se permite fazer: Quem cuida de quem cuida de todo mundo?
O Castigo de Atlas e a Performance Infinita
Na mitologia grega, Atlas foi condenado a carregar o céu nos ombros para sempre. Para muitos homens, a vida adulta parece esse castigo eterno. Não é apenas sobre trabalho; é sobre a sensação de que, se você fraquejar por um segundo, o céu de todas as pessoas que dependem de você virá abaixo.
Como aponta o filósofo Byung-Chul Han em A Sociedade do Cansaço, vivemos em uma era onde não somos mais "sujeitos da obediência", mas "sujeitos do desempenho". Nós nos autoexploramos acreditando que estamos nos realizando. Para o homem, isso é potencializado pelo que a pesquisadora Valeska Zanello chama de "dispositivo de eficácia": a ideia de que o valor de um homem é medido exclusivamente pela sua capacidade de prover, resolver e performar. Se você não é eficaz, você sente que não existe.
A Armadura que Virou Prisão
O problema de ser o "porto seguro" em tempo integral é que, para sustentar esse papel, você acaba vestindo uma armadura pesada demais. Como no clássico de Robert Fisher, O Cavaleiro Preso na Armadura, a proteção que você criou para não parecer vulnerável acaba se tornando a sua cela.
A armadura te protege dos golpes, mas também impede que você sinta o calor de um abraço ou a leveza de um afeto real. Você está cercado de pessoas — está "acompanhado" —, mas a solidão persiste porque ninguém consegue tocar quem você é de verdade por baixo do metal. As pessoas amam o "porto", mas poucas conhecem o "marinheiro" que está exausto lá dentro.
O Ciclo da Retroflexão: Você contra Você
Na Gestalt-terapia, usamos um conceito chamado Retroflexão. Basicamente, é quando o indivíduo faz consigo mesmo o que gostaria de fazer com os outros ou o que gostaria que os outros fizessem por ele.
O homem que vive a "solidão acompanhada" é um mestre na retroflexão. Ele se dá o suporte que ninguém lhe oferece. Ele engole o choro, ele se motiva sozinho, ele se cobra sem piedade. Ele se tornou o seu próprio carrasco e o seu próprio cuidador. O problema é que esse sistema é fechado; não há troca com o meio. E, sem troca, não há nutrição emocional. Você acaba "se alimentando de si mesmo" até que a energia se esgote.
O Convite: Aprender a Ancorar
A cura para a solidão acompanhada não é ter mais pessoas ao redor, mas mudar a qualidade do seu contato. É ter a coragem subversiva de dizer: "Hoje eu não sou o porto. Hoje eu sou o barco que precisa de manutenção".
Ancorar não é um sinal de derrota. É o reconhecimento de que até o pilar mais forte precisa de uma base sólida para não rachar. A terapia é, para muitos homens, o único lugar onde eles podem finalmente tirar a armadura, deixar o céu descansar no chão por uma hora e descobrir que, mesmo sem carregar o mundo, eles continuam tendo valor.

Cleiton Pedrosa
Psicólogo Clínico • CRP • 02/29066
Orientado pela Gestalt-terapia com foco no universo masculino e suas angústias contemporâneas. Ofereço um espaço de escuta sóbria para homens que buscam desarmar suas defesas e recuperar autenticidade em suas trajetórias pessoais e profissionais.
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