
Pergunte a um homem "quem é você?" e, em nove de cada dez casos, a resposta virá acompanhada de um título profissional. "Sou engenheiro", "sou advogado", "sou gestor". Raramente ouvimos alguém responder sobre seus valores, seus medos ou o que o faz sentir vivo fora do ambiente produtivo. Fomos ensinados, desde muito cedo, que o valor de um homem é diretamente proporcional à sua utilidade. O problema dessa lógica é que, quando a utilidade entra em xeque — por uma demissão, uma aposentadoria ou apenas um final de semana sem tarefas —, o que sobra é uma sensação de inexistência.
Na Gestalt-terapia, chamamos esse fenômeno de Confluência. É quando as fronteiras entre o "Eu" e o "Meio" desaparecem. O homem se funde de tal forma ao seu papel social e profissional que ele deixa de ter uma identidade própria para se tornar um apêndice do sistema. Ele não "está" gerente; ele "é" o cargo. E quando você se torna o cargo, qualquer oscilação no trabalho não é apenas um problema profissional, é uma ameaça de morte à sua própria identidade.
A Doença do Desempenho e o "Ter" vs. "Ser"
Erich Fromm, em sua obra clássica Ter ou Ser?, descreve com precisão esse impasse. Na modalidade do "ter", minha identidade baseia-se no que eu possuo: títulos, posses, status e responsabilidades. Se eu "tenho" um cargo de liderança, e esse cargo me é tirado, quem eu sou? Na modalidade do "ser", a identidade está na experiência, na presença e na autenticidade. O "ter" é frágil e depende de validação externa; o "ser" é resiliente.
O homem contemporâneo vive em uma vigília constante para manter o que "tem". Ele se torna um escravo do próprio desempenho, acreditando que a pausa é um pecado e que o lazer é apenas um "intervalo para recarregar e produzir mais". Essa mentalidade cria o que o filósofo Byung-Chul Han chama de "Sociedade do Cansaço", onde o sujeito se autoexplora até o esgotamento porque não consegue conceber a vida fora da lógica da eficácia. O resultado? Um homem que é admirado na empresa, mas que é um ilustre desconhecido dentro da própria casa — e, pior, um estranho para si mesmo.
O Inventário do Vazio: O que existe além das metas?
Se você quer testar a solidez da sua identidade, faça um exercício mental: se todos os seus títulos fossem revogados amanhã e o acesso ao seu trabalho fosse bloqueado, o que restaria para sustentar o seu dia?
Muitos homens entram em pânico diante dessa pergunta porque descobrem que o "solo" sob seus pés é feito de papel timbrado. A maturidade exige que comecemos a construir um solo mais firme. Isso não significa abandonar a ambição ou negligenciar o trabalho, mas sim realizar o que a Gestalt propõe como Discriminação: a capacidade de separar a "Figura" (o trabalho) do "Fundo" (quem você é).
O trabalho deve ser algo que você faz, um ajuste criativo para interagir com o mundo e prover sua vida, mas ele não pode ser a totalidade da sua existência. Quando o trabalho vira o centro absoluto, a vida torna-se unidimensional. A riqueza de um homem está na sua multiplicidade: ser pai, ser amigo, ser alguém que aprecia o silêncio, ser alguém que cultiva um hobby sem pretensão de lucro. São essas camadas que garantem que, quando a crise profissional bater — e ela invariavelmente bate —, você ainda tenha um lugar para onde voltar.
Recuperando o Sujeito
A travessia para uma identidade além do cargo exige coragem para suportar o tédio e a angústia que aparecem quando a "máquina de resolver problemas" desliga. É preciso aprender a habitar o tempo de forma não produtiva. É o que chamamos de recuperar a Awareness (consciência) de si mesmo.
Quem sobra quando o crachá sai? Sobra o homem que sente, que duvida, que tem curiosidade e que precisa de conexão humana real, sem segundas intenções. A sobriedade emocional começa quando você percebe que é valioso não pelo que entrega, mas pelo simples fato de estar presente. O sucesso real não é chegar ao topo da pirâmide corporativa; é chegar ao fim do dia e conseguir fechar os olhos em paz, sabendo que, se o mundo acabar amanhã, você viveu como uma pessoa, e não apenas como um recurso humano.

Cleiton Pedrosa
Psicólogo Clínico • CRP • 02/29066
Orientado pela Gestalt-terapia com foco no universo masculino e suas angústias contemporâneas. Ofereço um espaço de escuta sóbria para homens que buscam desarmar suas defesas e recuperar autenticidade em suas trajetórias pessoais e profissionais.
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