O recente caso do pai que tirou a vida dos dois filhos para atingir a ex-companheira, seguido de seu próprio suicídio, não é apenas uma tragédia doméstica. É o ponto de ruptura de uma masculinidade que confunde a sua própria identidade com a posse do outro. Como psicólogos, nossa tarefa é olhar para além do choque e desmembrar a perversidade das narrativas que emergem após o sangue secar, aquelas que tentam, a todo custo, dar um sentido palatável ao insuportável.

A Confluência como Arma

Sob a lente da Gestalt-terapia, crimes dessa natureza revelam um colapso catastrófico no contato. Para este homem, um sujeito funcional, ocupando cargos de visibilidade e mantendo uma imagem pública ilibada, a fronteira entre o "Eu" e o "Outro" nunca existiu de forma saudável. Operava-se ali uma confluência patológica.

Nesse estado, a mulher e os filhos não são reconhecidos como sujeitos dotados de autonomia, desejos e direitos próprios. São, antes, extensões do ego do patriarca. Quando o "Outro" se move de forma independente, neste caso, através do término do relacionamento e da busca por uma vida própria, o agressor experimenta isso como uma aniquilação de si mesmo. Como sua identidade está acoplada ao controle, a perda desse domínio é sentida como uma castração insuportável. A resposta é a retroflexão destrutiva levada ao limite: ele destrói o campo externo para que o campo interno não precise lidar com a frustração da perda. O lema implícito é: "Se o objeto de minha posse não me pertence mais, ele não pertencerá à vida".

A Banalidade do Mal no Velório

A reação social a este caso traz à tona o que Hannah Arendt descreveu como a Banalidade do Mal. O mal não precisa de figuras demoníacas; ele se manifesta na incapacidade dos indivíduos de pensar e julgar a realidade fora de clichês ideológicos.

A divulgação estratégica de uma suposta "traição" serviu como um combustível para que o tribunal da internet operasse um deslocamento perverso: o foco deixou de ser o filicídio e passou a ser a conduta moral da mãe. Quando uma massa hostiliza uma mulher e a impede de velar os próprios filhos, temos a expressão máxima dessa banalidade. As pessoas param de ver a vítima e passam a ver um "símbolo" de insubmissão que precisa ser punido. A sociedade, ao oferecer esse álibi moral ao agressor, torna-se sua cúmplice póstuma. O linchamento virtual e presencial da mãe é a continuação do crime pelas mãos da coletividade.

bell hooks e a Pedagogia do Domínio

Não podemos ignorar que esse comportamento é incentivado por grupos que pregam uma masculinidade ressentida. Como aponta bell hooks, vivemos sob uma pedagogia do domínio, onde os homens são ensinados que a raiva é a única emoção legítima diante da vulnerabilidade.

O conservadorismo estrutural e os discursos "masculinistas" reforçam a ideia de que o homem é o dono da narrativa familiar. Se o "contrato" de posse é quebrado, o revide é visto como uma reação trágica, mas compreensível. Ao tratarmos o assassinato como "crime passional" ou "desespero por amor", estamos validando a lógica de que a vida das mulheres e das crianças é subordinada ao estado emocional do homem. É um sistema que ensina homens a serem carrascos daquilo que dizem amar, simplesmente porque nunca aprenderam a perder.

O Silêncio do "Homem de Bem"

O fato de o agressor ser um secretário municipal e um cidadão respeitado é o que mais deveria nos causar alarme. Isso prova que o risco não reside no "louco" de rua, mas no homem que performa a normalidade enquanto cultiva o narcisismo possessivo. A rigidez desse personagem de "provedor inabalável" impede o acesso à fragilidade humana. Para o ego inflado pela autoridade pública, o divórcio é lido como uma falência política e social. O suicídio, nesse contexto, não é um ato de arrependimento, mas o gesto final de quem decide quando e como o espetáculo deve terminar.

O Compromisso com a Sobriedade

Minha prática clínica e minha visão social convergem em um ponto: não podemos mais aceitar a relativização da barbárie. A prevenção da violência doméstica e do filicídio não passa apenas por monitorar agressões físicas, mas por desconstruir a cultura da posse desde as suas raízes.

O consultório deve ser o espaço onde o homem aprende que a autonomia do outro não é uma ameaça à sua existência. É preciso coragem ética para olhar para esses casos e dizer o óbvio: nenhuma "provocação" ou término justifica o extermínio. Enquanto a sociedade continuar a procurar o "erro" na mãe para explicar o crime do pai, continuaremos a enterrar crianças em nome de uma honra masculina que já morreu há muito tempo.

Cleiton Pedrosa

Cleiton Pedrosa

Psicólogo Clínico • CRP • 02/29066

Orientado pela Gestalt-terapia com foco no universo masculino e suas angústias contemporâneas. Ofereço um espaço de escuta sóbria para homens que buscam desarmar suas defesas e recuperar autenticidade em suas trajetórias pessoais e profissionais.